quarta-feira, 9 de março de 2011

Cervejaria Otto Jennrich


Texto: José Ferreira da Silva - Blumenau em Cadernos - Tomo III - nº9 - Setembro de 1960 - www.arquivodeblumenau.com.br

Imagens:Fotos Antigas Blumenau



Otto Jennrich nasceu no Barracão de Imigrantes, pouco depois da chegada de seus pais a Blumenau - SC. Estes últimos depois se mudaram para Warnow (povoado bem distante que fazia parte de Blumenau, atualmente faz parte de Indaial), ocupando o lote que haviam adquirido. Com 14 anos de idade, Jennrich empregou-se na Cervejaria Hosang. Era ali muito estimado, tanto que a filha de H. Hosang, Clara, deveria casar-se com ele. Esse casamento, entretanto não se realizou, tendo Clara Hosang se casado com o Conde Von Westarp.

Por volta de 1891, tendo adoecido gravemente de "câmaras de sangue" (disenteria sanguínea, talvez originada por amebas), Jennrich foi despedido.

Era um dia chuvoso quando ele, de trouxa de roupa sob o braço, passou diante da casa de Pershun, a caminho de Warnow a pé.

Vendo-o, Gustavo Pershun Sênior, perguntou o que havia acontecido. Como os dois já eram conhecidos, Jennrich pô-lo ao corrente do que sucedera e como sofria da moléstia que o atacara.

Pershun, em face da situação do amigo, que de forma alguma poderia chegar a pé até a casa dos pais, convidou-o a permanecer em sua casa, tendo lhe mandado preparar uma cama e mandado chamar o medico, Dr. Valloton. Este declarou grave o estado do doente. Jennrich esteve durante quatro semanas em tratamento, sob cuidados médicos na casa de Pershun.

Depois que Jennrich se restabeleceu, Pershun emprestou 600 mil reis para Jennrich comprar uma tina para cervejaria e deu mais um terreno para a construção do rancho em que seria instalada a pequena fábrica, o rancho era de palmitos e coberto de palha. Além disso, ainda Pershun cedeu os seus aprendizes para ajudarem Jennrich na lavação das garrafas.

A primeira cerveja fabricada por Jennrich foi vendida em um baile no Salão Liesenberg, na Itoupava Norte, até lá, transportada por Jennrich e Pershun dentro de uma bateira, pelo rio. À meia noite tornaram a mandar buscar mais cerveja.

Mais tarde, Jennrich comprou o botequim de Daniel August. Pershun, pai do alfaiate Gustavo Pershun. Jennrich ficou hospedado na casa de Pershun até o ano de 1893, quando construiu a sua casa e a fábrica, no local em que ainda se encontram.

Assim que terminou a construção, Jennrich mandou buscar os seus pais em Warnow. A mãe cuidava dos afazeres da casa, cozinhando ao mesmo tempo para os empregados da cervejaria.

Desta forma Jennrich começou sua vida, auxiliado por Daniel e Gustavo Pershun: Vem daí a amizade muito grande que sempre uniu Gustavo Pershun e Jennrich.

A Cervejaria Jennrich, de Itoupava-Sêca, que por vários lustros, foi o ponto de reuniões alegres dos apreciadores de cerveja daquele bairro. Mesmo de Blumenau, não poucos apaixonados da loura bebida, se reuniam no bar, que Jennrich preparara num compartimento da fábrica, mobiliado a capricho, à moda das tradicionais "Bierstube" da legendária Munique, com os seus jarros e canecões de barro e porcelana lavrada, ostentando figuras e legendas, ora sérias, ora brejeiras, com chifres e cabeças de veado e de outros animais enfeitando as paredes.

Ali as horas decorriam céleres, em barulhentas tertúlias, pela noite a dentro, sob o estourar das rolhas bombardeando o teto, donde guirlandas pendiam. Ao alto da entrada, a decantada frase latina, que os leitores já conhecem "Cerevisiam bibunt homines; coetera animantia bibunt ex fontibus", os homens bebem cerveja. O gado bebe água da fonte.

Quando a pressão subia além do normal, começavam as cantorias. A princípio, ordenadas, cadenciadas e harmônicas. Depois, e à proporção que o calor aumentava, iam a todas as escalas da desafinação, em sustenidos incríveis, ou em baixos tétricos e sepulcrais.

Era, além de bom cervejeiro, homem de bastante leitura e tinha grande paixão pelas coisas do passado blumenauense. Assim é que, à própria custa, construiu, em terreno fronteiro ao da cervejaria, um pequeno sobrado em que instalou um museu. Ali se via uma infinidade de objetos de raro valor histórico e etnográfico, como flechas, arcos e outros apetrechos dos botocudos que infestavam o Vale do Itajaí; exemplares de plantas exóticas, coleções de insetos e de moedas, minerais, fotografias antigas, rótulos de produtos industriais, enfim uma série enorme de pequenas coisas relacionadas com os primeiros tempos da colônia, com os seus fundadores e povoadores, com as nossas riquezas naturais, o "Museu Jennrich" era tão ou mais conhecido e apreciado quanto a sua cerveja.

Esta era vendida, sob vários nomes, como a "Estrela", a "Polar", a "Kulmbach", preta, em meias garrafas. O seu custo era, geralmente, de 400 réis a garrafa.

Quando Adolfo Schmalz, Hans Lorenz e Victor Gaertner instalaram um cinema em Itoupava-Sêca, a entrada, que custava 1$200, dava direito a três garrafas de "Jennrich-Einfach", bebidas no próprio salão de projeção, enquanto se apreciavam as fitas de Max Linder, de Waldemar Psilander, quase sempre ao lado de Asta Nielsen.

Os vários cervejeiros em Blumenau de comum acordo majoravam a cerveja, conforme comprova o anúncio feito no jornal “Blumenauer Zeitung”, em 21 de maio de 1898
"Aumento preço cerveja – sábado, 21 de maio de 1898 – Os cervejeiros abaixo assinados comunicam à distinta freguesia que a garrafa de cerveja a partir de agora custará 300 réis à vista. Ass.: Gustav Brandes, Carl Rischbieter, August Germer, Otto Jenrich e Schossland e Hosang."

Jennrich tinha as suas esquisitices e era de gênio reservado, pouco comunicativo, apesar de, não raro, ter que sentar-se à mesa dos apreciadores da sua cerveja e, com estes, afundar-se na conseqüente e comunicativa alegria. Andava quase sempre de tamancos. E quando era obrigado a usar sapatos, adquiria-os sempre de um ou dois números maiores que os dos pés, pois tinha verdadeiro pavor de senti-los molestados. Nunca se casou. Viciara-se no uso do cachimbo e do fumo em corda. Chegou, até, a idealizar e construir uma máquina para picar fumo. A esse respeito, conta-se que, certa feita, quando movimentava a sua máquina, fê-lo com tanta infelicidade, que decepou, totalmente, as duas primeiras falanges do indicador direito. Sem se alarmar grande coisa, embrulhou o pedaço do dedo num lenço e foi procurar o Dr. Hugo Gensch para que este o repusesse no devido lugar. Verificando a impossibilidade de uma intervenção cirúrgica, o Dr. Gensch pilheriou com o cervejeiro, dizendo-lhe que não ficasse triste, pois que aquele pedaço de dedo, depois de bem seco, daria um excelente limpador de cachimbo. Pois Jennrich teve a pachorra de fazer secar muito bem o pedaço do dedo e mostrava-o, frequentemente aos amigos, chamando-lhes, a atenção para a originalidade do instrumento que o médico lhe havia recomendado para desentupir o cachimbo.

Com a falange que lhe restava, Jennrich costumava fazer outras pilhérias, como metê-la, em parte, na narina, parecendo, assim, que ali havia metido o dedo todo, o que causava hilaridade aos amigos e o espanto nas crianças, estas não podiam compreender como é que se podia enfiar um dedo inteiro no nariz.

Jennrich foi um cidadão prestimoso e o bairro em que desenvolveu a sua atividade, muito lhe deve do seu engrandecimento urbano e social. O Museu de Ecologia Fritz Müller Possui indumentária e utensílios indígenas da tribo Xokleng, que remontam ao seu cotidiano no Vale do Itajaí, doadas por Otto Jenrich em 1948.

A cervejaria consta do Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro publicado no ano de 1930, comprovando que até 1929 a cervejaria ainda existia funcionando, quando foi vendida para A. Tiede & Cia (sociedade de Alfredo Tiede e Adolf Schmalz), sendo liquidada em 1930.

Em 1931, os prédios e terreno da cervejaria de Otto Jennrich passam a fazer parte da entrada de capital na criação da Cervejaria Blumenauense S.A., depois incorporada ao patrimônio da Antartica Paulista.

Em 3 de fevereiro de 1944, otto Jenrich falece, sendo sepultado no túmulo da família Persuhn.

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